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Brasil e Rússia: oportunidades, desafios e os caminhos para uma relação econômica mais forte

O sonho de Ostap Bender de um Rio de Janeiro, com direito a sapatos amarelos e calças brancas, acabou se revelando bem russo. Todos os anos, centenas de russos (principalmente mulheres em busca de um romance) viajam para o país “onde há muitos macacos selvagens” em busca de seu próprio Rio.
Terra virgem intocada.

Analistas do Goldman Sachs preveem um futuro brilhante para o Brasil – até meados deste século, espera-se que sua economia cresça de forma extraordinária, superando significativamente a da Rússia. Aliás, os mesmos analistas uniram diversos países em uma espécie de unidade econômica, cunhando o termo BRIC: Brasil, Rússia, Índia e China. Nos próximos 50 anos, o BRIC poderá se tornar a principal potência econômica mundial. O Brasil, em particular, se tornará a principal fonte mundial de recursos naturais renováveis ​​– alimentos e biocombustíveis. Além disso, o país será um dos principais fornecedores de petróleo, aço, alumínio, aeronaves e automóveis para o mercado global.

De acordo com o portal de cooperação russo-brasileiro brasileiro.ru , Brasil e Rússia são parceiros naturais a longo prazo devido à complementaridade de suas economias. Por exemplo, a Rússia fornece fertilizantes ao Brasil e, em troca, recebe produtos alimentícios, principalmente açúcar e carne. No entanto, esse potencial mutuamente benéfico está sendo pouco aproveitado, especialmente para pequenas e médias empresas.

A maioria das histórias de sucesso de empresas russas no Brasil são exemplos do que não fazer. Existem vários motivos para isso: o isolamento geográfico do Brasil, as peculiaridades da mentalidade brasileira e das regulamentações governamentais, o sistema tributário extremamente complexo e as consequentes inconsistências contábeis, além do sistema judiciário incompreensível. Contudo, se o negócio for organizado corretamente e os meandros do mercado interno latino-americano forem compreendidos, os retornos podem ser bastante substanciais.

“Há algo pelo qual vale a pena lutar, apesar das dificuldades. Existem poucos lugares no mundo onde megaprojetos ainda são possíveis. Aqui, por exemplo, isso inclui a extração de minerais de depósitos de escala mundial, a participação no boom global dos biocombustíveis e projetos de reflorestamento em larga escala”, afirma um dos fundadores do portal brasileiro.ru.Andrey Derzhavin: Espera-se que empresários russos explorem grandes jazidas de polimetais, ouro e diamantes, que serão leiloadas internacionalmente no início do próximo ano. Apenas 10% dos recursos do subsolo brasileiro foram explorados. O programa brasileiro de desenvolvimento de energia elétrica exigirá importações significativas de equipamentos, que os russos também poderiam realizar.

Há outra consideração importante. O governo brasileiro está tentando atrair pequenos investidores por meio de um programa de imigração econômica. Investimentos em uma startup custam apenas US$ 50.000, e o investidor e toda a sua família recebem uma autorização de residência, que lhes permite obter a cidadania brasileira após quatro anos de residência.

No entanto, de acordo com dados da Câmara de Comércio e Indústria Rússia-Brasil (CCI), o país ainda é pouco explorado para os russos. A maioria dos imigrantes são mulheres que encontraram maridos por meio de agências matrimoniais. Os poucos homens que preferem não começar um negócio do zero (é muito trabalhoso) preferem trabalhar para uma empresa brasileira. À primeira vista, os negócios russos no Brasil parecem peculiares: Velhos Crentes, descendentes de imigrantes do início do século XX, trabalhando na agricultura, em um circo e em uma escola de balé na tradição do Teatro Bolshoi. Mas existem outros exemplos de sucesso empresarial.

Sumiram para o meio do mato e não voltam tão cedo.
Há um ano e meio, Andrey Kuimov, morador de Nizhny Novgorod, e sua esposa, Oksana, mudaram-se para uma vila brasileira com um nome difícil de pronunciar para um russo. Como estudante do quinto ano de linguística, Andrey conseguiu um emprego em uma empresa russa que importava produtos químicos de países asiáticos. Alguns meses depois, surgiu a oportunidade de liderar um novo projeto no Brasil. Havia duas condições: entusiasmo e conhecimento de português. A primeira foi fácil, enquanto suas habilidades universitárias ajudaram com a segunda. A empresa enviou Andrey e Oksana para aprender português usando um método intensivo. Eles passaram nos exames com sucesso, fizeram as malas e partiram para o outro hemisfério. Andrey agora gerencia uma filial de uma empresa russa que atua na produção de produtos químicos florestais. Todos os produtos são enviados para a Rússia, onde são processados ​​na fábrica da matriz e, em seguida, vendidos no mercado interno e parcialmente exportados.

“Após o processamento, nossos produtos podem ser usados ​​na produção de emulsificantes para a indústria de pneus, adesivos, aditivos para tintas, solventes, base para goma de mascar e até fixadores de fragrâncias para perfumes. O mercado global de produtos químicos florestais é enorme”, afirma Andrey.

Esse tipo de negócio no Brasil é um dos mais atrativos para investimentos. Diferentemente da Rússia, há um forte apoio à agricultura aqui — o país praticamente vive da exportação de produtos agrícolas e afins. O arrendamento de terras para fins agrícolas custa de US$ 6 a US$ 8 por hectare por ano. Um hectare de terra no estado do Mato Grosso do Sul é vendido por US$ 1.000 a US$ 1.300. Em 2002, custava 900 reais (cerca de US$ 300 na cotação da época). A alta do preço em dólares se deve em parte à valorização do real, enquanto outros fatores incluem o aumento da produção agrícola, a aquisição de terras por grandes corporações, como Google e Microsoft, e regulamentações mais rigorosas que regem o uso da terra e das florestas na bacia amazônica e em outras áreas protegidas. Todos esses fatores não mostram sinais de arrefecimento, tornando o investimento em terras brasileiras inegavelmente vantajoso.

No entanto, o preço da terra não é a única vantagem desse tipo de atividade. O governo brasileiro desenvolveu programas de crédito específicos para o setor agrícola. Por exemplo, pelo Programa de Desenvolvimento da Região Centro-Oeste do FCO, produtores agrícolas — pessoas físicas e jurídicas — têm a oportunidade de receber empréstimos em condições preferenciais, inclusive para reflorestamento. As taxas de juros variam de 5% a 9% ao ano, e os prazos de pagamento variam de 3 a 20 anos, dependendo das atividades específicas do tomador.

“É claro que a adaptação aqui não foi fácil, dadas as peculiaridades da mentalidade e da legislação brasileiras. O Brasil é um país de sol eterno e festa, e às vezes é muito difícil convencer os brasileiros despreocupados a não faltarem ao trabalho”, diz Andrey.

Os Kuimovs têm que lidar com essa peculiaridade nacional até mesmo em casa. No verão passado, nasceu seu filho Daniel (em russo, ele é Danila, mas as autoridades brasileiras os obrigaram a registrar o recém-nascido como cidadão no idioma local em seus documentos). Oksana, que estava desempregada na época, teve que contratar uma empregada doméstica para ajudar a limpar a casa de quatro cômodos alugada para uma família russa por seu patrão.

“Quando você diz a um brasileiro orgulhoso que ele está relaxando demais, ele pede demissão imediatamente! Independentemente do salário. Nossa empregada, com quem geralmente estávamos satisfeitos, certa vez terminou todo o trabalho em uma hora (embora normalmente levasse sete horas), foi para casa e faltou ao trabalho no dia seguinte, mesmo que a pagássemos muito bem para os padrões brasileiros, e não pelas horas trabalhadas, mas pelo salário”, lembra Oksana. “Eu disse a ela: ‘Querida Vanilse, por que você faltou ao trabalho na sexta-feira?’ Ela respondeu: ‘Porque era o dia santo de Nossa Senhora, ninguém trabalhava!'” Eu disse a ela: ‘Vanilla, mas todas as lojas estavam abertas naquele dia, e os médicos também…’ Ela respondeu: ‘São ótimos feriados, você não deveria estar trabalhando.’ Eu: ‘Vanilla, mas por que você limpou nossa casa por sete horas antes, e agora só levou uma hora?’ Resposta brilhante: ‘Porque antes sua casa estava suja, e agora eu limpei tudo e você não precisa limpar mais.’

Oksana trabalha atualmente na mesma empresa que o marido e planeja fazer um MBA com ele no Brasil. Andrey já está cursando Administração de Empresas. Um MBA no Brasil custa entre US$ 150 e US$ 1.000 por mês, dependendo da universidade. Os Kuimov planejam ficar no Brasil por mais quatro anos, período em que Andrey levará o projeto que lidera até atingir as metas estabelecidas.

“Atualmente, arrendamos florestas, mas plantar nossos próprios pinhais é estrategicamente importante para nós. Legislação fundiária favorável, preços de terras relativamente baixos e empréstimos direcionados e preferenciais para o plantio de eucaliptos e pinheiros tornam esses projetos extremamente atraentes. Uma empresa de consultoria russa que opera no Brasil preparou um projeto para o plantio de florestas de eucalipto. A rentabilidade é alta – cerca de 22% ao ano, excluindo os custos da terra e a valorização do real (50% considerando a valorização)”, diz Andrey.

Andrey administra atualmente cerca de 2.500 hectares de floresta – aproximadamente 850.000 pinheiros. Até o início do próximo ano, a empresa planeja atingir um faturamento de cerca de US$ 200.000 por mês e US$ 350.000 até o final do próximo ano.

“É muito barato viver aqui para os padrões russos”, diz Oksana. “Um quilo de costeleta de primeira no mercado local custa de 90 a 100 rublos. Laranjas custam de 11 a 13 rublos o quilo, abacaxis custam cerca de 25 rublos. Um jantar para dois em um bom restaurante brasileiro custa 850 rublos, incluindo bebidas alcoólicas.”

A pequena Dania, que com dezoito meses já viajou não só por todo o Brasil, mas também por países vizinhos, tem passaporte brasileiro e dupla cidadania com a Federação Russa.

“O passaporte da Dania difere do meu em muitos aspectos.” Um cidadão brasileiro pode obter a cidadania portuguesa (na prática, cidadania da UE) após três anos de residência em Portugal. Os portadores de passaporte brasileiro podem viajar sem visto para dezenas de países, e a entrada nos Estados Unidos é simplificada. “Quanto ao meu passaporte, você sabe o que Maiakovski escreveu”, sorri Oksana.

“A explosão da tequila para uma revolucionária.”
Daniel Natal-Lell não se considera brasileiro propriamente dito. O pai de Daniel, de 31 anos, um comunista brasileiro, foi para a URSS há 35 anos, durante a ditadura. Lá, casou-se com uma russa, a futura mãe de Daniel, e retornou ao Brasil quando a repressão terminou.

“Tentamos manter a cultura russa em casa: a culinária, a decoração, os costumes — tudo é russo”, diz Daniel, cuja placa do carro é uma bandeira russa. Ele morou em Moscou por alguns anos e agora tenta visitar sua pátria adotiva sempre que possível.

Farmacêutico de formação, Daniel decidiu abrir um restaurante russo na cidade de Goiânia.

“Os brasileiros têm uma atitude positiva em relação aos russos, e nós ofereceremos a eles vodca e blinis autênticos, enquanto a decoração do estabelecimento será estilizada para se assemelhar à Rússia Soviética — todos aqueles cartazes ideológicos e outros atributos puramente soviéticos”, diz Daniel. Ele está procurando um local para a futura “ilha da Rússia Soviética” e pensando em um nome. Poderia ser um simples e direto “Rússia” ou “Red’s” (para os brasileiros, essa palavra evoca a Praça Vermelha, não cerveja).

Goiânia tem uma população de cerca de 2 milhões de habitantes, mas lugares decentes para relaxar podem ser contados nos dedos de uma mão. A conta média de um jantar no futuro restaurante russo gira em torno de US$ 30 (um pouco acima da média para os padrões brasileiros). Mas o preço não é o principal critério para o sucesso. “O mercado de restaurantes aqui é aberto; o principal é entrar com estilo, para que os clientes vejam você e se lembrem de você”, acredita Daniel. Isso não deve ser um problema: em todo o Brasil, existe apenas um restaurante russo com apenas 20 mesas, famoso por seus preços exorbitantes, comandado por um chef francês e um proprietário brasileiro. E não é só que a cultura russa não seja particularmente familiar aos brasileiros. Estabelecimentos que servem culinária nacional não são comuns no país. Os brasileiros não são muito entusiastas dos poucos restaurantes japoneses; os italianos e franceses se assimilaram à cultura gastronômica local.

Não deve haver problemas com a parte técnica. Daniel estima que o investimento inicial em um restaurante russo seja em torno de US$ 100.000 a US$ 200.000 (dependendo se ele tiver que comprar o terreno ou administrar um contrato de aluguel de longo prazo). A principal despesa não será o design sofisticado e meticuloso (os brasileiros, não tão acostumados com a gastronomia local, olham primeiro para a cozinha e só depois para as paredes), mas sim a refrigeração e os equipamentos de cozinha. A mão de obra brasileira é muito barata, então reformas estéticas custarão quase nada. Um sistema de crédito flexível permitirá a compra de todos os móveis a crédito, direto da fábrica, a preços de fabricante.

“Vou me concentrar em compartilhar a experiência das baladas de Moscou. Por exemplo, vou criar um bom cardápio de coquetéis — a maioria dos brasileiros não sabe o que é um Tequila Boom ou um B-52; eles geralmente bebem vodca e energéticos”, diz Daniel. É verdade que não será possível transmitir completamente a experiência de Moscou: o controle de acesso como existe na Rússia é impossível no Brasil; você seria processado por discriminação.

Mais do que um Circo:
A moscovita Yulia Simonova cresceu na família de um artista e treinador circense. Durante a era soviética, ele treinava artistas circenses para países aliados como Cuba e Vietnã, enquanto a própria Yulia fazia turnês com a trupe por toda a União Soviética. Em 1996, quando as artes circenses na Rússia estavam, para dizer o mínimo, em péssimo estado, o diretor brasileiro Augusto Stevanovic convidou a artista russa para criar um novo espetáculo, e ela aceitou sem hesitar. O espetáculo foi um sucesso; Augusto e Yulia fizeram turnês por toda a América Latina e tiveram um filho, Alan.

Hoje, o circo de Yulia e Augusto não tem concorrentes — somente no Brasil, suas apresentações já foram assistidas por aproximadamente 2 milhões de espectadores. O segredo está na síntese das tradições circenses russas, elementos de espetáculos de variedades e anos de experiência em turnês pela América Latina. Um pré-requisito é a participação de artistas russos, que vêm ao Brasil especificamente para uma temporada de dois a três meses.

“Nossa trupe inclui acrobatas, malabaristas, muitos ilusionistas, trapezistas, palhaços e dançarinos de salão clássicos e modernos. Vários dos nossos programas são únicos no Brasil, e talvez até no mundo — sabe, uma combinação singular de espetáculos de variedades e circo tradicional”, explica Yulia.

Um dos motivos do nosso sucesso é que alguns ingressos são vendidos para famílias de baixa renda, então o circo recebe apoio das prefeituras: isso inclui reembolso de despesas, bons locais para a tenda do circo e auxílio na distribuição de ingressos. Aliás, praticamente qualquer pessoa pode assistir ao espetáculo; os ingressos custam no máximo 20 reais (cerca de US$ 10).

“Devo dizer que estamos com dificuldades para cobrir os custos com hospedagem e acomodação dos artistas, passagens aéreas, viagens dentro do Brasil e transporte de equipamentos e materiais.” Viajamos usando seis carretas, dois caminhões médios e dois trailers que abrigam a área administrativa e os camarins. “Quando chegamos ao destino, contratamos funcionários, cerca de 40 pessoas: eletricistas, motoristas, carpinteiros, atendentes da lanchonete, bilheteiros, assistentes e outros”, diz Yulia. “

A principal preocupação é encontrar empresas que possam patrocinar a turnê na Argentina, Chile, Paraguai e Venezuela. O restante da parte financeira está sob o controle dos donos do circo.

” “Para reduzir os custos de aluguel, investimos bastante em transporte, geradores de energia, equipamentos de iluminação interna e externa, equipamentos de som, duas grandes estruturas de tenda e compramos equipamentos de refrigeração para a lanchonete e máquinas de pipoca. No total, gastamos cerca de US$ 1 milhão. Investimos aproximadamente US$ 100.000 em figurinos e equipamentos para os ilusionistas. As principais despesas são salários da equipe, manutenção de equipamentos e publicidade. As despesas contínuas chegam a US$ 30.000 por mês.” “Temos grandes planos para criar um centro de produção circense e uma escola de circo em Goiânia. Também planejamos trazer gerentes e professores da Rússia para trabalhar neste centro”, diz Yulia.

Carne e café
Anton Kosygin, de 30 anos, está envolvido em um negócio tradicional brasileiro: carne. Anton, um siberiano formado pela Universidade de Administração de Moscou, foi parar na América Latina por acaso: ele estava procurando uma posição de gestão em um projeto e lhe ofereceram o Brasil. Anton não tinha família na época e nada que o prendesse na Rússia, então ele se adaptou rapidamente e partiu. Aprendeu o idioma no local. Atualmente, mora em um apartamento alugado em Goiânia e possui um visto permanente — na prática, uma autorização de residência —, o que possibilita a residência permanente.

“Vim para o Brasil pela primeira vez no final de 2005, convidado para trabalhar em um projeto russo-brasileiro relacionado à produção e exportação de carne. Minha experiência anterior era diversificada: finanças, cartografia, energia e mercado imobiliário. Isso me ajudou muito quando comecei no projeto e aprendi sobre as especificidades brasileiras. Nosso volume de negócios atualmente é de 1.000 toneladas por mês, o que se traduz em cerca de US$ 2 milhões”, explica Anton. Graças ao seu clima, o Brasil se tornou um dos maiores produtores agrícolas do mundo, e estabelecer um escritório comercial especializado aqui é totalmente lógico.

“À primeira vista, os negócios parecem simples: assinar contratos com fornecedores e clientes, produzir e enviar produtos e acompanhar os pagamentos. Mas, na prática, você se depara com uma enorme quantidade de desafios únicos. Os brasileiros encaram acordos e até mesmo contratos escritos com leviandade. Quando a situação do mercado muda e surgem dificuldades, os produtores estão dispostos a atrasar a produção e o envio dos produtos sob qualquer pretexto”, diz Kosygin. “Ao mesmo tempo, os relacionamentos pessoais são de grande importância; muitas questões complexas podem ser resolvidas saindo do contexto comercial e entrando em uma conversa agradável e amigável. Um grande problema para administrar um negócio é a escassez de pessoal competente e até mesmo simplesmente atencioso. Decidi recrutar jovens sem experiência profissional para este projeto, e acertei. Como critério de seleção, propus a resolução de problemas matemáticos simples, envolvendo essencialmente cálculo mental.” De 50 pessoas com ensino superior, selecionei cinco, treinei-as e agora tenho uma equipe funcionando.

Investir no setor de carnes brasileiro é uma aposta certeira. Segundo fontes locais, nos primeiros nove meses deste ano, os brasileiros exportaram US$ 631 milhões em carne bovina, US$ 416 milhões em carne suína e US$ 109 milhões em carne de aves somente para a Rússia. A Rússia, como muitos outros países, depende de importações agrícolas, portanto, a principal exportação brasileira sempre terá demanda.

“Entre as dificuldades, posso destacar a necessidade de saber português, já que quase ninguém fala inglês aqui, com exceção talvez de São Paulo e Rio. Também mencionaria a imprevisibilidade da política econômica. O país está atualmente preocupado com projetos de biocombustíveis e com a manutenção de condições favoráveis ​​ao oligopólio bancário — tudo isso prejudicial para as médias e grandes empresas envolvidas em exportações”, acredita Anton.

A moscovita Alan Kusov trabalha com café, outro produto brasileiro de grande valor. O café é originário da África, mas hoje o Brasil responde por até um terço das exportações mundiais de café. Além disso, ela preside e define as diretrizes da Organização Internacional do Café (COI).

“O COI controla aproximadamente 80% das reservas e da produção mundial de café. Nos últimos anos, o preço dos grãos de café tem subido, atingindo os níveis do final da década de 1980. O Brasil desempenha um papel decisivo nisso”, afirma Alan.

O contato de Alan com o Brasil começou em 1999, quando ele e seus sócios fundaram a Companhia de Produção de Café em Moscou. Naturalmente, os principais fornecedores eram empresas brasileiras. No entanto, a qualidade do café fornecido estava longe do ideal e, em 2002, Alan viajou ao Brasil para estudar a situação no terreno. Os brasileiros mostraram com orgulho a Kusov diversas plantações que produziam um café excelente, mas, infelizmente, inaceitavelmente caro. Levando em conta o frete e os impostos, a margem de lucro da empresa de Alan não seria superior a 10%. Além disso, o real brasileiro estava se valorizando em relação ao dólar, apesar de os contratos serem fechados em moeda americana, e os preços do café no mercado brasileiro continuavam subindo. Portanto, os moscovitas decidiram estabelecer sua própria produção.

“Minhas ações decisivas começaram com o registro de uma empresa no Brasil. Não foi tão caro, cerca de US$ 2.000, e não demorou muito — cerca de duas semanas. Investidores estrangeiros são muito bem-vindos aqui. Tínhamos combinado anteriormente com brasileiros indicados por amigos a compra de uma fazenda a 350 km ao sul da capital, Brasília. Naquela época, eu não sabia como os brasileiros conseguiam cumprir suas promessas. E então, meses de espera se arrastaram”, relembra Alan.

Todos os empresários russos concordam que os brasileiros são impontuais e não gostam de prestar contas.

“O mais deprimente é a benevolente falta de comprometimento dos sócios e o grande número de férias. Apesar de seus extensos recursos administrativos, os sócios brasileiros muitas vezes não conseguem converter isso em dividendos reais”, enfatiza Alan.

No entanto, Kusov e seus sócios agora estão desenvolvendo seus negócios com sucesso no Brasil. O segredo do sucesso é o envolvimento de empresas de consultoria especializadas em negócios russo-brasileiros, que ajudaram a desenvolver uma metodologia para fazer negócios na América Latina. Como resultado, além da produção de café, adicionamos um projeto de purificação de água em circuito fechado, construção, exploração e extração de minerais (metais preciosos, diamantes) e comércio.

“Atualmente, uma de nossas empresas, a Diamond Network Intelligence, está desenvolvendo um projeto de investimento no setor de minerais avaliado em mais de US$ 100 milhões”, afirma Alan. “O Brasil tem vantagens inegáveis. O sistema burocrático é favorável à cooperação entre nossos países. O marco legal para fazer negócios, quando usado corretamente, não deixa espaço para corrupção. O investimento estrangeiro é legalmente protegido. O principal é encontrar uma boa empresa de consultoria e um parceiro brasileiro confiável; sem eles, não há nada a fazer no país.”

Pontos de contato
Segundo Antonio Carlos Rosset, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Rússia-Brasil, com sede em São Paulo, sua organização recebe anualmente até dez delegações russas de alto nível. Os russos estão interessados ​​em uma ampla gama de áreas de cooperação: comércio, produção petroquímica, engenharia mecânica e energia. E, invariavelmente, os empresários russos cometem os mesmos erros. O principal deles é achar que os russos querem trabalhar apenas com russos.

“Em junho deste ano, recebi uma delegação liderada pelo presidente da maior produtora de alimentos da Rússia. Eles me pediram para apresentá-los a russos que vivem no Brasil, para que pudessem falar sobre o país sob a perspectiva russa. Esse desejo é compreensível. Mas posso afirmar que os russos que vivem no Brasil não estão interessados ​​em criar concorrência fornecendo informações precisas”, diz Rosset. “Se você quer abrir um negócio no Brasil, entre em contato com brasileiros e encontre uma boa empresa de consultoria.” Eu também daria esse conselho aos brasileiros que querem abrir um negócio na Rússia: procurem russos, não seus compatriotas.

No entanto, os russos que vivem no Brasil ou que fazem negócios lá discordam de Rosset. “Entrar no mercado sem se basear na experiência de outros russos é arriscado, pois acarreta perda de dinheiro, tempo e o colapso do projeto. É claro que você precisa usar pessoal brasileiro, mas sob a supervisão de gerentes russos”, afirma Andrei Derzhavin.

Outro erro comum entre os russos é escolher o Rio de Janeiro como ponto de partida.

“O Rio é uma cidade turística, mas não um centro de negócios. São Paulo é outra história. É sede da Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA), a maior da América Latina. 80% da produção de empresas como Volkswagen e General Motors está concentrada lá”, diz Rosset. “Se você quer investir em turismo, então, claro, vá para o Rio, mas não há muito mais o que fazer por lá.

Por exemplo, a cidade de Ribas do Rio Pardo, apesar de seu pequeno porte (com apenas 19 mil habitantes), é muito atrativa para diversos tipos de negócios.”

— Opções de investimento comprovadas incluem, por exemplo, pecuária e reflorestamento comercial. Devido à grande quantidade de resíduos da indústria madeireira, uma usina termelétrica movida a biorrecursos renováveis ​​será construída na cidade. Há também a possibilidade de criação de uma unidade de produção de bioetanol, cujo mercado está em constante crescimento no Brasil, afirma o prefeito da cidade, Joaquim Dos Santos. Muitos projetos interessantes já foram implementados na cidade. O primeiro é uma usina metalúrgica, construída há 15 anos. Hoje, é uma das maiores do estado do Mato Grosso do Sul: faturamento anual de 230 milhões de reais (US$ 127,8 milhões) e a empresa emprega cerca de 250 pessoas.

— Existem muitas diferenças na maneira como russos e brasileiros fazem negócios, diz Antonio Rosset. Os brasileiros nunca dizem “sim” ou “não”. Eles dizem: “Vou pensar na sua proposta” — e adiam a resposta o máximo possível. Os brasileiros também adoram prometer coisas que não podem cumprir. É importante verificar minuciosamente o histórico da empresa com a qual você está assinando um contrato, pois as informações podem ser falsas. Mas também existem semelhanças entre russos e brasileiros. Ambos são burocratas, apreciadores de todo tipo de carimbo e papelada. Os empresários russos entendem as especificidades de se fazer negócios no Brasil muito melhor do que seus colegas japoneses, alemães ou americanos. Por exemplo, se alemães ou americanos não conseguem lidar com negócios no Brasil, eles ligam para a matriz e pedem cobertura. Os russos resolvem essas questões por conta própria, sem recorrer à ajuda de seus superiores. Isso sempre nos surpreende e agrada.

 MARIA VOLKOVA

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Revista Money,  nº 44(650)  , 12 de novembro de 2007

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